segunda-feira, 1 de outubro de 2012



PERDEMOS ERIC HOBSBAWN, QUE DISCUTIA SERIAMENTE COMO MUDAR O MUNDO

O mundo amanheceu hoje perdendo uma de suas fontes de inteligência, o historiador Eric Hobsbawn, falecido às 6 horas da manhã, no horário de Londres, aos 95 anos. Hobsbawn teve até agora mais de 30 livros publicados, entre os quais "A Era dos Extremos", "História do Século 20 - de 1914 a 1991" e o último, de que gosto especialmente, "Como mudar o mundo", publicado ano passado no Brasil pela Companhia das Letras. Nesse livro, faz um balanço sobre Marx e a história do marxismo, lúcido e limpo.
Consciente da historicidade e da importância de Karl Marx, escreveu, antevendo, que “o Marx do século XXI será, com certeza, bem diferente do Marx do século XX”. A abertura para a atualidade da questão o historiador apontava de muitos ângulos, tanto econômicos, na medida em que o mercado capitalista tem como calcanhar de Aquiles o crescimento acelerado e a degradação do ambiente planetário, quanto políticos, a respeito da configuração da democracia e da organização do estado.
Sobretudo, Hobsbawn, sublinha no pensamento de Marx a inspiração para uma ação política com dimensões históricas conscientes, não como oportunismo pontual, seja de direita ou de esquerda. Diferente dos fatalistas que acham que a dimensão histórica degringolou, ou dos fatalistas que acham a mudança histórica um destino traçado pelo desenvolvimento econômico, o historiador frisou: “Marx e Engels não confiavam na atuação espontânea das forças históricas, e sim em ação política dentro dos limites do que a história possibilitava. Em todas as etapas da vida, eles sempre analisaram as situações tendo em mente a ação”. Recomendo muito a leitura de “Como Mudar o Mundo”.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO DIGITAL COM PEDAGOGIAS DA CULTURA



EDUCAÇÃO DIGITAL COM PEDAGOGIAS DA CULTURA

- Uma boa proposta para um plano de governo -


Em período eleitoral, a questão do acesso às novas tecnologias da informação bem que poderia ganhar maior atenção nos programas dos candidatos. Promover a educação digital parece uma ação simples. Não é! A presença de computadores nas escolas, conectados à internet, não garante que sejam bem aproveitados em termos de acesso à informação, ampliação da criticidade e favorecimento à pesquisa e produção de conhecimento pelas crianças e adolescentes.
Um dos mais conceituados estudiosos da relação entre as novas tecnologias e o futuro do pensamento, Pierre Lévy, doutor em Sociologia e Ciência da Informação e da Comunicação pela Sorbonne e pesquisador em inteligência coletiva pela Universidade de Ottawa, adverte sobre a distância que existe entre a evolução técnica e uma apropriação coletiva capaz de desenvolver-nos humanamente a partir dela.
Lévy comenta o caso da França, que nos anos 80 realizou um investimento significativo em informatização do ambiente escolar, inclusive em formação de professores,e  mesmo assim teve resultados aquém do esperado. A explicação é que as instituições educacionais portam uma cultura pedagógica há séculos baseada no falar/ditar onde o professor é a autoridade que controla as iniciativas, as condições e caminhos para o conhecimento, enquanto para as novas conectividades e disponibilidades da informação precisamos pensar relações criativas e uma ecologia cognitiva. Oficinas de orientação e projetos de alcance cultural são parte da implantação das novas tecnologias no ambiente escolar, caso contrário os resultados ficam devendo ao potencial.
Em Ourinhos, tive oportunidade de fazer a coordenação arte-educativa das atividades do projeto Ponto Para Ler o Mundo, que, resumindo, baseia-se na ideia de Leitura de Mundo vinda de Paulo Freire e no uso das novas tecnologias. O projeto desenvolve-se no contraturno e as crianças têm acesso a máquinas fotográficas/filmadoras e computadores com ilha de edição e conexão. Propomos a eles que atuem como jornalistas, produzindo reportagens e entrevistas. Eles debatem temas, levantam dados, roteirizam a matérias e vão atrás de produzi-las, depois de entender o básico da produção jornalística, através do lead (O que? Quem? Onde? Como? Por que?). Não só se respeita a curiosidade como se aguça a atenção ao propor o debate do que é mais importante em torno de cada tema, essencial para a edição.
Bem, esse é só um exemplo, entre uma galáxia de possibilidades que existem nas Pedagogias da Cultura, aquelas que juntam os potenciais expressivos das linguagens artístico-culturais com os pensamentos pedagógicos que estimulam a criação das crianças.
Voltando ao debate eleitoral, vejo poucas menções ao assunto por parte dos candidatos à prefeitura em Londrina. Márcia Lopes tem um ponto no programa de governo, chamado Londrina Cidade Digital, visando dar transparência aos dados da gestão pública, prover ao londrinense  acesso à internet com sinal aberto em pontos diversos da cidade e ofertar educação digital com qualidade nas escolas. Em especial, destaco a educação digital. Não só é muito bem-vinda a proposta, como Márcia a respalda com a noção de que a Cultura deve estar presente em várias ações de seu governo, transversalmente. Ademais, vejo que é a candidatura capaz de gerar e dar sustentação para uma ação desse porte.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

LEITURA DE MUNDO, A HERANÇA DE PAULO FREIRE

Neste dia 19 de setembro fazem 91 anos de nascimento do educador Paulo Freire, falecido em 2 de maio de 1977. Os que babam azedo ao dizer que a esquerda está superada intelectualmente conseguiriam enfrentar a lucidez e generosidade humana do educador? Dificilmente, pois dialético como era, já deve tê-los respondido por antecipação pelo menos uma centena de vezes. De modo que não nos ocupamos aqui das cabeças ressentidas, mas de lembrar um dos mais instigantes caminhos teóricos do educador, o conceito de “leitura de mundo”.
Em 1981, na abertura do Congresso Brasileiro de Leitura realizado em Campinas, SP, Paulo Freire apresentou o texto/palestra “A importância do ato de ler”, enunciando sua preocupação com a compreensão crítica da leitura, que deveria ir além da decodificação simples da palavra e da linguagem escrita, buscando antecipar-se e alongar-se na inteligência sobre o mundo. Essa busca, o educador chamou “Leitura do Mundo”.
Para Paulo Freire, a linguagem e a realidade se prendem dinamicamente e a compreensão crítica do texto implica percepção de relações entre texto e contexto. Em ambos os casos, respeita-se que a compreensão e a expressividade são o elemento humano em movimento e não a dissecação do sistema da língua ou a captura da realidade bruta, sem inteligência... O raciocínio do educador se harmoniza com o do sociolinguísta russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), para quem o contato entre a significação lingüística e a realidade concreta se dá nos enunciados da vida, sendo o que provoca os lampejos da expressividade.
No escrito de 1981, Paulo Freire sustenta que a Leitura do Mundo é anterior à leitura da palavra, vinda para cada um da curiosidade, da aculturação e da decifração desde a infância. Em outro texto, 10 anos depois da palestra no Congresso de Leitura de Campinas, em diálogo com o físico e pesquisador em educação e antropologia Márcio D´Olne Campos, Paulo Freire pontua que “alfabetização implica reconhecer o ponto de partida da leitura de mundo, implica pensar em que níveis a leitura de mundo está se dando ou quais são os níveis de saber que a leitura de mundo revela”.
Dessas considerações facilmente se depreende dois erros insistentes do sistema de ensino praticado nas escolas: abordar a alfabetização e a linguagem pelo formalismo das estruturas gramaticais - como se a língua fosse petrificada -, e não explorar devidamente os elos entre o que a criança está aprendendo na escola com o que apreende do mundo. Tal equívoco – registrou-o Paulo Freire - impede a criança de trilhar em si mesma o caminho da ingenuidade até a rigorosidade na leitura, enriquecendo a experiência de ler. Impede também uma aprendizagem aberta à diversidade cultural e a diversidade expressivo-cognitiva da arte. A leitura de mundo é exercício do sujeito crítico, artístico e cidadão. É um vasto mundo educativo partindo da noção deixada por Paulo Freire.

Sugestões de leitura:
- “A importância do ato de ler”, de Paulo Freire. Cortez Editora, São Paulo, 2006.
- “Pedagogia dos sonhos possíveis”, de Paulo Freire. Editora Unesp, São Paulo, 2001.
- “Estética da criação verbal”, de Mikhail Bakhtin. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1997.

terça-feira, 11 de setembro de 2012


COMENTANDO O PROGRAMA DE CULTURA DA MÁRCIA 2:

RETOMAR E RENOVAR O PROMIC

Das propostas de Márcia Lopes para a Cultura, destaco a ideia de Novo Promic, com maior destinação de recursos e menos burocracia. Registre-se que os demais candidatos nem mesmo falam no Programa Municipal de Incentivo à Cultura – Promic. Suspeito que seja por uma simples razão: não o conhecem, não sabem como funciona e nem sabem que se trata de um dos principais modelos de fomento cultural municipal existente no Brasil.
Enquanto modelo de legislação, o Promic é muito bom. Foi concebido em 2002 e implantado a partir de 2003, numa inédita discussão aberta com o meio cultural, em conferências de cultura: prevê o fomento a projetos vindos dos artistas, produtores culturais e da comunidade mediante editais abertos para seleção de projetos. Prevê o fomento a Projetos Independentes, nascidos da vontade dos produtores de cultura, e também a Programas e Projetos Estratégicos, para  processos culturais de maior abrangência, que estruturam a presença das linguagens culturais na cidade e o intercâmbio cultural.
Apesar de ser um bom modelo, nos anos recentes foi maltratado. A gestão de Barbosa Neto diminuiu os recursos investidos, não deu bola para estruturar ações comuns dos projetos em benefício da cidade e aumentou a burocracia no tratamento aos produtores culturais. Enfim, esvaziou a energia cultural que a cidade vinha vivenciando. Márcia propõe retomar um Promic em diálogo com o meio cultural, com mais recursos e com o espírito de quem reconhece a importância da cultura na vida da cidade.
Dois outros pontos importantes do Programa de Governo são a implantação de um Circuito Expressivo Permanente que leve oficinas e espetáculos para todas as regiões e o fomento a Vilas Culturais nos bairros. Essas Vilas Culturais são espaços para a criação e circulação da arte e da cultura e formação de agentes culturais nas comunidades, onde a juventude desenvolve potenciais de produção cultural, em sentido de organização, de criação e operação técnica. Essas duas propostas estão diretamente relacionadas a retomar e renovar o Promic, pois se viabilizam através dele, pelos projetos dos próprios artistas e comunidades.
Resumo da ópera: a Márcia conhece e reconhece o processo cultural. Os outros devem estar correndo atrás de informações para dizer alguma coisa e não aparentar o que de fato portam sobre o assunto: um vazio.

COMENTANDO O PROGRAMA DE CULTURA DA MÁRCIA-1:
A VERDADE ENFÁTICA DO GESTO
Faço questão de comentar aqui o programa de governo da Márcia Lopes para a Cultura. Antes de falar das propostas, chamo atenção para duas coisas: a primeira é que o Programa de Governo da candidata está sintetizado em um pequeno livreto de bolso, distribuído aos eleitores e disponível nos comitês regionais da campanha e numa barraquinha montada no Calçadão. O eleitor pode levá-lo consigo, consultar e discutir. Tornar o Programa de Governo conhecido é um gesto de respeito, bem diferente de materiais meramente publicitários.
Segundo fato: nesse livreto, a parte dedicada às propostas culturais é aberta por uma frase de Márcia, que ouvi a candidata repetir várias vezes em reuniões onde discutimos o assunto: “A cultura está presente em todos os momentos e aspectos da vida das pessoas. Por isso ela tem que fazer parte de todas as políticas públicas que vamos implantar”. Essa é uma consciência antropológica da cultura. Como lembra o historiador Peter Burke, “hoje (...) seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros usam o termo “cultura” muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser aprendido em uma dada sociedade – como comer, beber, andar, silenciar e assim por diante”.
Nos bairros pais e mães solicitam oficinas culturais para crianças e adolescentes. Sabem que a satisfação criativa e a capacidade de expressão são alternativas saudáveis, que estruturarão positivamente as vidas de seus filhos e os afastarão da violência. Não por acaso atividades culturais são tão bem-vindas nas escolas, como aberturas para as leituras de mundo e para a imaginação dos estudantes. Elas renovam o ambiente educativo.
Com esse reconhecimento da presença da cultura na vida, Márcia aponta que as ações de cuidado social, de segurança, de saúde e as de caráter educativo também vão contar com as potências criATIVAS da arte e da cultura. Igualmente sinaliza que os recursos destinados à cultura se ampliarão para além do orçamento específico dessa pasta.Muitas pessoas comentam que os candidatos se parecem e buscam agradar. Acho que não. Observando atentamente, as diferenças são gritantes. E as verdades se revelam mais ainda nos gestos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012


ELEIÇÕES E O MAPA DA CULTURA...
Assistindo os programas do horário eleitoral ontem (quarta, 06/09), vi que alguns dos candidatos tocaram, direta ou indiretamente, na questão cultural. Fiquei pensando num texto do filósofo-educador Rubem Alves, onde ele fala sobre “mapas” que formulamos na cabeça, para orientar nossos rumos. Diz ele que “os mapas são criados para marcar os caminhos, trilhas por onde caminhar no espaço abstrato do mundo. Servem para nos levar do lugar onde estamos para o lugar onde desejamos ir.” Aplicando essa definição sobre os Mapas às pistas ontem postas pelos candidatos, não gostei dos caminhos que marcaram.

Belinati apresentou um tipo de “homenagem” aos artistas, focada em um artista de Londrina identificado com a música erudita, ou melhor, com um modo de tratar a música erudita. O processo artístico-cultural de Londrina é diverso, inclusive controverso. Só há um jeito de tratar corretamente esse coletivo: ouvi-lo e respeitá-lo em sua diversidade, e homenageá-lo da mesma maneira. Se a homenagem é o mapa de uma escolha, cabe ao meio cultural pensá-la...

Cheida falou da degradação da área central e em recuperá-la. Focou em imagens da iluminação deteriorada e no abandono do prédio da Secretaria de Cultura. Propôs ampliar a iluminação e a segurança e criar uma integração entre praças. Isso é válido, mas deixou de falar em programação cultural, fundamental para a fruição da cultura e a convivência respeitosa da população com nosso patrimônio histórico edificado. Sem isso, recuperações logo viram degradação. Foi um mapa sem alma.

Kireff falou dos festivais da cidade. Focou em valorizar o potencial turístico dos eventos culturais. Mas só citou nominalmente três de nossos festivais, e temos vários outros, também muito bons. Deixou de falar em valorizar os projetos culturais com os recursos necessários. Ou seja, seu mapa pensa como empresário onde a cultura é atrativo para negócios, sem adentrar na destinação de recursos públicos essenciais para que o processo cultural tenha condições de acontecer. Os artistas e produtores culturais são profissionais sérios, não voluntários. A cultura é essencial à expressão e à qualidade de vida, não apenas atração turística.

Vamos ficar de olho nos mapas...